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A ESTRADA DOS ROMEIROS E SUA HISTÓRIA

Postado em: 7/2/2015 | Categoria: História & Cultura
Diário de Motocicleta

A cidade de São Paulo é o mundo todo, um caldeirão de diversidade cultural, uma mistura de gente e muita história para contar, apesar da pouca idade, se comparada a outras capitais mundiais.

Se não bastasse o tanto por se fazer e conhecer, os arredores da capital paulista esconde verdadeiros pedacinhos do paraíso e estradas maravilhosas, o que para nós motociclistas, é a mesma coisa.

Dentre as várias rotas que podemos escolher para colocar as duas rodas em giro total, há uma estradinha muito simpática da qual tenho um carinho muito especial, a Estrada dos Romeiros que passa pela cidade de Pirapora do Bom Jesus, Cabreúva e termina em Itu, um excelente caminho para quem planeja um bate e volta com os amigos até a cidade das coisas gigantes.

A Estrada dos Romeiros começa no município de Barueri e costumo acessá-la na altura do 26 KM da Rod. Castelo Branco – sentido interior.

Nessa altura o traçado é urbano, mais se parecendo com uma grande avenida, com semáforos, lombadas, trânsito local e outras cenas que certamente levam o motociclista, que nunca passou por ali, a um breve arrependimento.
Mas basta uma pequena dose de persistência e paciência que logo as curvas começam a surgir, principalmente depois de cruzar a ponte sobre o Rio Tietê, na cidade de Pirapora do Bom Jesus.

A imagem do rio morto e mal cheiroso se contrasta com as colinas a perder de vista, e nos levam a refletir sobre o mal que estamos fazendo com o meio ambiente.

Deste ponto em diante, a Romeiros segue serpenteando o vale com o rio à sua esquerda, e é neste cenário que uma das histórias mais incríveis que conheço me vem sempre à mente.

Poucos devem saber, mas esta estrada esconde o leito de um caminho construído a quase 1.000 anos, incialmente pelos índios Guaranis e depois pelos Incas.

Conhecido como Caminho do Peabiru, conta a história que por volta do ano 1.100 D.C., os Incas haviam estendido seus caminhos até a altura de Asunción no Paraguai, e lá firmaram laços comerciais e de amizade com os índios Guaranis que lhe ofereceram um caminho que dava ao mar.
Descrentes, o Incas disseram que o mar era no sentido contrário do ponto onde eles haviam partido, mas devido a grande insistência dos Guaranis, partiram para conferir a veracidade dos fatos, e assim acabaram saindo da mata na altura de Santos, litoral de São Paulo.

A partir daí, customizaram o caminho à sua moda, que consistia em uma vala de 1,40m de largura, 40 cm de profundidade e toda revestida de um tipo de grama que impedia o crescimento de mato e outras vegetações.

Ao adentrar no território brasileiro e cruzar o Estado do Paraná, o Caminho do Peabiru margeava o Rio Tietê até São Paulo em uma época em que nada disso existia.

Com a chegada dos Portugueses e Espanhóis em meados de 1500, o caminho foi descoberto e atribuído inicialmente aos índios, mas quando conseguiram entender que o caminho era do “povo das montanhas”, dezenas de expedições partiram em busca do lendário Rio da Prata, e culminou com o fim do Império Inca, 50 anos depois, quando uma bala atravessou a cabeça de Túpac Amaro, o Filho do Sol e último Imperador Inca.

A partir daí, vários trechos do Peabiru começaram a ser usados, e com o passar do tempo se tornaram ruas, avenidas e estradas. Hoje, a Estrada dos Romeiros é o seu legado, por onde agora guio amigos motociclistas em passeios de moto até Itu, como o último realizado pela DUCATI Santos, onde colocamos 20 incríveis motos rodando um caminho mágico.

É um contraste brutal imaginar essas máquinas percorrendo um caminho onde há cerca de 500 anos atrás, índios usando nada mais que sandálias, caminhavam do litoral do Peru até as nossas praias.

Para quem acha essa história fantasiosa e até mesmo absurda, eu percorri 80% do Caminho do Peabiru em parceria com o Salão Duas Rodas em 2011, e no interior do Paraná, um amigo historiador, me levou em uma propriedade que possui 30m do caminho original, e depois me apresentou seu museu particular com centenas de peças Incas encontradas nas redondezas.

Somando essa história incrível com as curvas deliciosas da Estrada dos Romeiros, o dia se completa com mais uma motocada e boas dicas para os amigos curtirem o caminho sobre duas rodas.


Serviço:

- Estrada dos Romeiros – SP312.
- Acesso na saída 26B da Rod. Castelo Branco – sentido interior.
- Aproximadamente 70 km de extensão.
- Percorre os municípios paulistas de Barueri, Pirapora do Bom Jesus, Cabreúva e Itu.
- Requer atenção por conta do tráfego local, crianças e animais na pista. Estrada vicinal com curvas fechadas. Grande parte sem acostamento.
- Atrativos no caminho: Fábrica de Chocolate e Mirante da Gruta

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