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UM DIA DE PERRENGUE - PARTE 3

50º dia de viagem
Dia: 23/9/2015 | Cidade: Foz do Iguaçu/PR | Categoria: Diário do Piloto
Diário de Motocicleta

Assim que chegamos no hotel em Roque Sáens Peña, vi as motos do Lírio e do Jorge estacionadas e tratei de deixar um bilhete, pedindo que me chamassem antes de sair.

Subimos para o quarto com uma garrafa de água e um litro de Quilmes Cristal.
O Hotel não tinha nada para comer, então nos satisfizemos com líquido.
A cerveja me fez relaxar um pouco do dia tenso, e até me ajudou a dormir, mas meu sono foi muito leve, pois a preocupação de estar com a carteira vazia era angustiante.

Quando o telefone tocou por volta das 8h da manhã, eu já estava acordado desde às 6h pensando em uma solução.
Era o Lírio se despedindo, ele e o Jorge seguiriam para Foz do Iguaçu (800 km) e queiram saber se iríamos juntos.
Disse que sairíamos mais tarde e questionei ele sobre problemas de sacar dinheiro nos caixas argentinos. Ele disse que não havia tentado, mas que o Jorge estava com dificuldades também.

Pensei em lhe pedir uns trocados, ou mesmo comprar agora e pagar depois no Brasil, mas fiquei com vergonha, além do que, é muita folga pedir grana para quem conhecemos um dia anterior na estrada.

Quando nos despedimos e eu ouvi o barulho das motos irem embora, me arrumei e desci, parando de imediato na recepção para saber onde encontraria caixas eletrônicos, e já aproveitei para tentar pagar o hotel com meu cartão de crédito que foi recusado... com o cartão de débito o sistema não podia ser acessado.

Fiquei gelado e parti para os caixas.

Depois de umas cinco quadras grandes, cheguei no Banco Nacional da Argentina com o mesmo sistema LINK que já me recusara os saques em Taco Pozo e Monte Quemado, e me lembro de ter entrado na agência pisando primeiro com o pé direito... eu precisava de fé.

Na agência haviam cinco máquinas e tentei em todas elas as mais diferentes quantias... de S 2.000,00 até $ 100,00 e nada... sempre a mensagem que eu estava solicitando uma quantia acima do permitido, ou que a minha operação não era autorizada.

As coisas não iam bem pro meu lado.
Precisava pagar o Hotel ($500) e um extra pra gasolina até o Brasil ($500).

Sai do banco pensando em mendigar, mas com uma camisa escrita DUCATI, acho que não teria tanta credibilidade assim.

Vi outro caixa eletrônico do sistema LINK e entrei com o pé esquerdo mesmo, pois superstições e crendices não servem para nada.
Coloquei o cartão, pedi $ 1.000,00 e não acreditei quando a máquina começou a contar o dinheiro.

Comecei a gritar dentro da cabine e fiz nova tentativa depois para garantir mais um troco, mas o sistema novamente não respondeu.
Quando sai as pessoas na fila olhavam assustadas para a minha cara de felicidade e sorriso largo.

Fui para o hotel e vi que o pneu estava murcho... normal, eu tinha dois furos e como já tinha passado por um borracheiro, pedi meia hora de tolerância no nosso Check-out e tratei de empurrar a moto por duas quadras.

Enchi o pneu e a trama ainda mais desgastada fazia os dois furos vazar o ar.
Com os dois últimos macarrões, reparei o pneu enquanto um rapaz chmado Pablo, me perguntava se eu não queria um pneu novo.
Disse que adoraria, mas estava com problemas com os caixas e ele disse que é sempre assim, os sistemas andam instáveis e nem a população consegue sacar dinheiro.

De toda forma ele começou a fazer ligações e acabou achando um 190 por $ 5.800, o mesmo preço que me deram em Salta, com a diferença que havia em estoque.
Mas eu não tinha nessa altura mais que $ 500 no bolso e disse que me contentava com mais “macarrãozinhos” (aqui chamados de tarugos) e se ele sabia aonde eu poderia comprá-los.
Ele disse que sabia e que me levaria lá.

Entrei no carro do Pablo e saímos pela cidade.
Na primeira loja não tinha, mas o vendedor me ofereceu um Tire Repair e o Pablo de imediato comprou me impedindo de pagar.

Fiquei sem jeito, mas sempre digo que pobre orgulhoso é a pior coisa que existe e aceitei a gentileza.

Seguimos para outra loja e lá sim havia o tal Tarugo... peguei e novamente quando fui pagar, o Pablo não permitiu... ficamos em um duelo de quem pagava até que o vendedor acatou o que o Pablo dizia e me devolveu meu dinheiro.

Explicando nossa situação com o pneu... os vendedores sugeriram fazer um Tip-Top... uma espécie de recauchutagem como se faz em caminhão, colocando uma manta de borracha sobre o pneu, para evitar mais desgaste... e nos indicaram a Borracharia do Grego... e lá fomos nós com muita esperança, mas o Grego disse que para moto não funcionaria, pois as máquinas eram para pneus grandes.

Passamos então na Concessionária Yamaha Alvarez, amigos do Pablo e me ofereceram um pneu 160 usado, mas como a DUCATI Multistrada usa um pneu 190, descartei a oferta e voltamos para a borracharia para resgatar a minha moto.

Me despedi do Pablo e tratei de reparar o pneu com o novo macarrãozinho, muito mais grosso dos que eu tinha.
Nisso um senhor que observava a moto se aproximou. Seu nome era Jorge, e logo me perguntou se eu não queria colocar um pneu de carro. Naquela altura qualquer solução era bem vinda e logo ele foi se informar das medidas, mas todos eram maiores.

Motociclista, Jorge disse que tinha uma oficina na esquina e que eu deveria passar lá, pois conhecia muitos outros motociclistas que poderiam me ajudar.
Combinamos de nos encontrar depois de sair do hotel, e tão logo coloquei a moto na rua, antes da Elda subir na moto ele apareceu dizendo que tinha encontrado vários pneus usados.

Deixamos a Elda com a mãe dele e seguimos atrás de solução, mas depois de 4 quadras o pneu esvaziou por completo, chegando ao seu derradeiro fim.
Levamos a moto para casa de um amigo dele, e enquanto eu me dirigia para a Yamaha olhar com mais carinho aquele pneu 160, Jorge foi atrás de pneus maiores.

Para a minha surpresa, o Leandro, dono da concessionária me deu o pneu de presente me desejando "Suerte!" na volta ao Brasil. Assim que sai da loja, o Jorge voltou dizendo que existiam dezenas de pneus que serviriam na minha moto, mas que o mais barato custaria $600 pesos.

Fiquei com o meu “regalo”(presente) e levamos a minha moto para a Borracharia do Grego – por coincidência.

Os caras trabalharam muuuuito para conseguir inflar o pneu 160 na roda da DUCATI Multistrada... foram quase 30 minutos de tentativas até que deu certo.

Me cobraram $50 (cerca de R$ 20,00) – parti com a promessa de voltar em breve com cerveja e carne para um assado (churrasco).

Dali fui buscar a Elda que já fazia parte da família do Jorge, encontrando-a sentada à mesa após o almoço com a mãe, esposa, filhos e sobrinhas do Jorge.
Também almocei – minha primeira refeição em dois dias - aliás um maravilhoso Pastel de Papas -  e por volta das 15h seguimos viagem.

Meu pneu ficou com o amigo Jorge e ano que vem volto para buscá-lo – eu faço coleção!

Abastecemos e dali uns 200 km entramos em Corrientes e passamos por 5 bancos, e em nenhum deles conseguimos sacar dinheiro, então a solução era seguir para o Brasil – mais 600 km pela frente.

Nunca saímos para motocar a noite, mas com menos de $ 350 no bolso, não tínhamos outra escolha.

As últimas imagens que conseguimos fazer antes de anoitecer foi de uma caminhada de jovens para um encontro Católico nas imediações de Itati, por cerca de 50 km haviam pessoas caminhando ao lado da estrada e isso nos consumiu quase 1h das 11h de viagem noite a dentro.
Por volta das 2h da manhã chegamos em Foz do Iguaçu e por sorte o Mc Donald's estava aberto e pudemos jantar.

Nunca me senti tão feliz em voltar para o Brasil.
Agora descansaríamos um dia antes de seguir viagem pra casa.

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