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UM DIA DE PERRENGUE - PARTE 2

49º dia de viagem
Dia: 22/9/2015 | Cidade: Roque Sáens Peña/AR | Categoria: Diário do Piloto
Diário de Motocicleta

Logo cedo, liguei para uma concessionária em Salta, a mesma em que troquei o pneu da DUCATI Multistrada em Abril/15 quando vim para os lados do Atacama guiando um grupo, e a notícia não foi nada boa.

Não havia pneu traseiro em estoque na medida 190/55/17, e disseram que em 4 ou 5 dias poderiam trazer de Buenos Aires e me custaria a bagatela de P$ 5.800 pesos, ou R$ 2.400 nos tempos atuais (US$ 610,00).

Assim sendo, nossa opção era seguir viagem com cautela, em baixa velocidade e evitando as pedras na estrada.

Saímos rumo à Resistencia, numa missão bem difícil, rodar mais de 850 km, cruzando o Chaco Argentino, famoso por suas retas intermináveis, temperaturas altas e o temor da falta de gasolina e cidades distantes uma entre as outras.

Novamente sai marcando no velocímetro a quilometragem de cada borracharia pela qual passávamos, e como as Leis de Murphy agem mais na estrada, o meu medo de encontrar pedras no caminho se tornou um pesadelo ao passar a cidade de Tolloche, quando obras me lançaram em quilômetros de terra e pedras, o que fez a nossa velocidade diminuir ainda mais, na casa dos 30 km/h com o foco no chão, desviando de pedras maiores e com uma enorme vontade de flutuar.

Conseguimos atravessar esse trecho sem danos no pneu, em compensação os nervos seguiam tensos à flor da pele.

Ao passar por Taco Pozo, novamente a corrente caiu, e desta vez ficou presa em um parafuso da coroa, causando uma pequena torção.
Fiquei bem preocupado, pois estava no meio do nada e com pouco dinheiro na carteira.

Mais uma vez comecei a tentar ajustar a corrente e ao ver uma moto se aproximando, fiz sinal e um rapaz que levava um senhor na garupa parou em meu auxílio.

Mostrei a situação e disse que tinha uma coroa (corona) para substituir. Ele me informou que em Taco Pozo havia um mecânico muito bom que poderia fazer o serviço.
Pediu que o esperasse, pois ele levaria o senhor até Monte Quemado (35 km adiante) e voltaria para me levar até lá.

Quando ele partiu, terminei de arrumar a corrente e fiz uns testes... tudo ok, coloquei a Elda na garupa e comecei a voltar para Taco Pozo (16 km) andando bem devagar.

Quando vi duas motos grandes vindo em minha direção, encostei e fiz sinal para os Catarinenses Jorge e Lírio que pararam para nos ajudar.
Nos sugeriram seguir com eles até Roque Sáens Peña, mas seriam mais 350 km e com aquela corrente torta e a coroa praticamente banguela, não conseguiríamos acompanhá-los, além de atrasar a viagem deles.
Disse que voltaria para Taco Pozo para trocar a coroa, e eles nos acompanharam até a oficina de onde nos despedimos com a promessa de nos reencontrarmos na estrada.

Rapidamente o mecânico Carlos logo me atendeu, e expliquei que precisávamos trocar a coroa, mostrando como fazer, e que tinha as ferramentas necessárias para isso, inclusive a chave de boca de 55mm que comprei antes da viagem... ideal para trocar coroa e pneu.

Enquanto ele começava o serviço, fui até um caixa eletrônico para sacar dinheiro e para o meu desespero, o sistema não estava funcionando direito e não fazia conexão com o Visa Plus e não me liberava um centavo sequer.

A situação era complicada, pois eu não tinha dinheiro para pagar o mecânico e tão pouco para gasolina até Resistencia, neste ponto distante a 550 km.
Na verdade eu tinha autonomia para apenas 125 km.

Voltei para oficina preocupado e já disse ao Carlos que o banco não funcionava e que teria que ir até Monte Quemado tentar sacar dinheiro por lá. Ele concordou e ao terminar o serviço me questionou se eu não tinha nada em dinheiro.
Mostrei a ele meus poucos Pesos Chilenos, Bolivianos, Reais e 10 Dólares.

Ele queria US$ 100,00 pelo serviço, mas fechamos por CH$ 29.000 e os US$ 10,00 – R$ 210,00 no fim das contas.

Seguimos nosso caminho com a coroa nova, mas com a velha corrente e o mesmo pinhão, já que por essas bandas não existem motos maiores que 150cc.

Quarenta quilômetros depois, entramos em Monte Quemado e começamos a circular em busca de um caixa eletrônico, e pedindo informação em um posto de gasolina, um senhor que abastecia seu carro disse que nos levaria até lá.

Nos guiou pela cidade e quando chegamos no banco, fiquei gelado, pois era a mesma agência de Taco Pozo, logo, o mesmo sistema.
Enquanto eu entrei, ele ficou conversando com a Elda na calçada e não demorou muito para eu ver na tela a mensagem que a minha operação não poderia ser completada.

Sai do banco arrasado... como poderíamos continuar a viagem com menos de 100 km de autonomia e sem conseguir sacar dinheiro nos caixas?

Contei as más notícias para Elda e o senhor, chamado Alberto Goethe, me questionou quanto me faltava para chegar ao meu destino.
Eu disse que um tanque de gasolina era suficiente e ele mais que rapidamente pegou a carteira e me deu P$ 150,00.
Tentei recusar... a Elda também, mas ele revelou que morou no Brasil por seis anos, no Largo do Arouche em São Paulo, que o Brasil tinha lhe dado muitas coisas boas, e encontrara brasileiros que o ajudaram muito, e agora era a hora dele retribuir.

Anotei o celular dele e nem tivemos tempo de tirar uma foto, pois ele logo entrou no carro e partiu nos deixando aliviados.

Abastecemos os exatos P$ 150,00 e com esse tanque, tocando devagar por conta do pneu careca e com dois furos, chegamos em Presidencia Roque Sáens Peña por volta das 22h sem almoço, sem condições de jantar e com a dúvida se poderíamos pagar no dia seguinte pelo hotel que passaríamos a noite... por indicação do Jorge e do Lírio, o mesmo hotel em que eles estavam hospedados.

O jeito era dormir com a barriga vazia e esperar pelo dia seguinte.

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