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BR-319 / NÍVEL 3 - QUANDO O CORPO PADECE

41º dia de viagem
Dia: 16/9/2013 | Cidade: BR-319/AM | Categoria: Diário do Piloto
Diário de Motocicleta

Acordamos com o corpo dolorido, mesmo tendo armado a barraca na “grama”. Foi a primeira vez que acampamos na vida e relutamos em levar colchão inflável por conta do peso extra na já carregadíssima bagagem.

Pensamos na hipótese de colchonetes ou sacos de dormir, mas seriam mais volumes pra lá e pra cá por conta de uma ou duas noites na mata... então levamos apenas uma colcha velha, que serviria de cobertor, mas  acabou servindo como colchão.

Não resolveu nada!

Saindo da barraca a Torre da Embratel era a única coisa que provava a existência da humanidade... isolados, no meio as selva, distantes do ponto em que partimos e longe demais do nosso destino, eu olhava para aquela antena e pensava nos 80 km rodados no dia anterior. Apenas 80 km... quanto tempo mais ficaríamos ali?

Preocupava-me sobremaneira a condição da Elda, com cólicas recorrentes, os solavancos e os trechos feitos a pé consumiam suas energias e a minha mente que trabalhava enquanto ia aos poucos recolhendo todos os nossos pertences e montando a moto que aos poucos baixava a altura do solo, tamanho peso.

Peso... velocidade... distância... tempo... haveria outras coisas para se pensar? Eu buscava sem êxito e mantinha a ideia fixa de sair dali.

Vestimos nossas roupas de segunda pele, mesmo não sendo adequadas para o verão, serviria para nos proteger do Sol forte, já que o protetor solar pouco fez por nós. E assim fomos para estrada depois da Elda chorar o abandono do Fiel que se revelou ser uma cadela e que rapidamente foi batizada de Fifi.

Partimos por volta das 8h30 como sempre sem olhar no retrovisor e avançamos cerca de 15 km na primeira hora, fato que me deixou muito feliz e esperançoso de um dia mais fácil. Mas comemorações precoces em viagens de moto são coisas que não devemos fazer. Já experimentei frustrações e revés, principalmente por caminhos desconhecidos, mas tenho memória curta para coisas ruins e sempre carrego o otimismo que não cessa mesmo diante do infortúnio, e ele veio como era de se esperar.

Após os 15km o terreno começou a ficar extremamente difícil, com atoleiros secos e molhados e pontes atrás de pontes. No dia anterior foram 32 pelas nossas contas, e rapidamente contava 18... 19... 20...

Enquanto o Sol subia sobre nossas cabeças desprovidas de capacetes, cruzar aquelas pontes ficava cada vez mais complicado por conta da fraqueza que nos abatia. Estávamos a dois dias comendo bolacha e pão com atum e o corpo começava a reclamar.

Logo após encontrar um grupo de cinco motociclistas de Porto Velho que seguiam para Manaus, paramos em um igarapé para encher nossas garrafinhas de água que não matavam nossa sede.

Nunca na minha vida bebi tanta água e urinei tão pouco... agora suar... vixi!

Depois de passar por uma ponte repleta de madeira podre e pregos expostos, parei para pegar nossa reserva de água fresca quando comecei a ouvir helicópteros... olhei para os lados e a mata escureceu quando imediatamente fiquei surdo... era a minha pressão que caíra muito rápido, me dando apenas a oportunidade de agachar e deitar sobre o Sol escaldante.

A Elda que vinha a pé da ponte correu em meu auxílio fazendo sombra e me dando água, mas não dava para ficar ali. Reuni forças não sei aonde e voltei para moto... saímos em busca de uma sombra e por sorte ela não demorou a aparecer. Mais uma vez paramos e novamente me deitei no pouco asfalto que ali tinha.

A pressão caiu novamente e cãimbras nas mãos e pernas castigaram os músculos cansados. Não impus resistência e apaguei por quase 1h30.

A Elda com cólicas também dormiu um pouco e só acordamos quando a sombra já havia se movido e o Sol nos beijava os rostos queimados.
Pensei de que forma eu poderia desistir... jogar a moto de uma ponte ou de um penhasco e ficar sentado sobre os baús esperando alguém passar me pareceria plausível.

Aos amigos relataria um acidente com perda total do veículo, fato que faria meu corretor correr com o seguro já que nenhuma seguradora do mundo entraria 500 km floresta adentro para verificar minha história.

Voltaríamos de avião e não conseguiria me olhar no espelho por muito tempo... na verdade por muitos anos. A vitória é passageira... a desistência é para sempre.

Abri os olhos e me levantei devagar. Eu e a Elda nos olhamos por uns instantes sem dizer nada até que proferi as palavras mágicas... bora motocar!

Seguimos viagem e aproximadamente em 5 km chegamos na Torre Marielson onde encontramos os funcionários que nos permitiram dormir na Torre anterior.
Pedi para ferverem um pouco de água e finalmente depois de três dias comemos um pouco de comida, se é que podemos chamar Cup Noodles de comida.

Suficiente ou não, sentimos uma nova energia e logo após abastecer duas garrafas com água de poço, seguimos rumo à Torre Brasil.

De forma surpreendente chegamos a menos de duas hora, batendo nosso recorde na BR-319 e nos enchendo de moral a ponto de partimos rumo à Torre seguinte onde iríamos dormir pela terceira noite na Floresta Amazônica.

Com pouco tempo de luz do dia, rodamos 12 km na primeira hora e a preocupação de viajar a noite começava a me assombrar. Por sorte, depois de uns km ruins com muita areia, o asfalto começou a pipocar e quando era 19h chegamos à nossa nova pousada, mas a encontramos com os portões trancados na base de corrente e cadeado.

Por sorte, um buraco na grade nos permitiu a entrada com os baús, barracas e equipamentos.

A motoca dormiu do lado de fora, enquanto nós nos abrigamos na garagem com um luz de 40W que acendia sempre que passávamos diante do sensor.
O chato foi dormir sem poder tomar um banho já que não havia cisterna como na Torre da primeira noite.

Dormimos felizes por ter superado esse terceiro dia e conseguido o feito de rodar cerca de 120 km naquela estrada que por vários momentos quis nos vencer.

Sorte não ter lançado a moto de uma ponte... neste dia ninguém passou por nós... estaríamos agora na mata escura lamentando a estúpida ideia de desistir.

Vencemos e estávamos pronto para mais um dia.

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