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610 KM EM DOIS DIAS

27º dia de viagem
Cidade: Santa Cruz de la Sierra/BO | Categoria: Diário do Piloto
Postado em: 08/11/2017
Diário de Motocicleta

Com as pernas completamente babam do esforço do dia anterior pelo interior da Caverna Umajallanta, montamos na moto com a missão de retornar para Cochabamba, pela mesma e única estradinha de pedra – a Ruta 25.

Quando o caminho é conhecido, temos aquela falsa sensação de que é mais rápido, ou ainda que o caminho encolheu, mas infelizmente isso não se aplicou a esta estrada.
Demorou tanto quanto, na verdade fomos cerca de 20 minutos mais rápidos, mesmo parando mais para fazer fotos... o caminho de volta se tem uma vista melhor dos arredores, e as grandes montanhas formando um vale no formato de funil, até que desaparece, é impressionante.

Fotografamos, filmamos e curtimos muito aquele visual.
Gostaria de voltar guiando um grupo, mas será preciso uma seleção especial, com pilotos e garupas dispostos a pagar o preço para ter um contato especial com uma natureza pouco explorada.

Como conseguimos sair de Torotoro por volta das 8h da manhã (um feito quase inédito) chegamos em Cochabamba às 13h, e poucos quilômetros antes do hotel, ainda questionávamos a possibilidade de seguir direto para Santa Cruz, em um roteiro de 475 km em aproximadamente mais 9h30... isso nos faria chegar no hotel às 23h, depois de mais de 15h ziguezagueando a Cordilheira dos Andes, freando em milhares de lombadas e desviando sei lá de quantos animais na pista... não, não obrigado.

Nos hospedamos no hotel em que sempre fico com os grupos, e fomos almoçar ali perto mesmo.

Os planos seguintes era seguir para Santa Cruz, e de lá visitar Samaipata, mais uns 600 km pela frente... mas haviam outras alternativas saindo de Cochabamba que encurtariam cerca de 300 km, mas a um preço alto.

A ideia surgiu no meio da tarde, em mudar nosso roteiro e seguir direto para Samaipata pela Ruta 7 – conhecida como Carretera Antigua, foi a primeira estrada que ligava o Leste ao Oeste da Bolívia, e que, após a conclusão da Ruta 4, começou a cair em desuso, bem como a sua manutenção.

Consultando meu amigo Ivan Grego, este me disse que no ponto mais alto desta estrada, o lugar é conhecido como Sibéria, e por conta da densa floresta, chove muito e atualmente existe cerca de 200 km de terra, cascalho e areia fina como talco.

Não preciso dizer que desisti do caminho né.

Perguntei então se indo por Aiquile, pegando parte da Ruta 23 que já tínhamos feito a caminho do Uyuni, não seria melhor, pois bastaria acessar a Ruta 5 que eu sabia que ainda estava em obras.
A resposta foi mais desanimadora – como de fato, ainda estão trabalhando na Ruta 5, e o pequeno trecho entre Villa Granado e Saipina (80 km) são de matar, com pedras grandes cobertas por talco, o que garante fáceis tombos.

Não tinha jeito, jogamos a toalha e na manhã seguinte seguimos para Santa Cruz pela Ruta 4, a mesma que usamos no começo da viagem para chegar em Cochabamba.

Não tenho nada contra esse caminho, já o fiz uma dezena de vezes, e talvez por isso, buscava tanto novas rotas, mas a Bolívia ainda está em franca expansão de suas estradas – as construções não param nem mesmo no feriado de finados, quando passamos por vários pontos de obras em andamento, com homens e máquinas se movendo.

O ponto alto de rodar este trecho foi especialmente a data do dia dos mortos, também chamado de finados por aqui.

Ao longo da estrada encontramos centenas de cruzes de pessoas que faleceram em acidentes, e neste dia, todas elas estavam enfeitadas de flores, e por diversas vezes vimos famílias inteiras descendo dos carros para prestar suas homenagens.

Aliás, aqui a comemoração de finados é muito diferente do Brasil, enquanto levamos um maço de flores e acendemos algumas velas e voltamos para casa, os bolivianos passam o dia no cemitério, levam verdadeiras coroas de flores, cadeiras, mesas, sentam-se ao lado dos túmulos, almoçam, alugam som e na frente de vários cemitérios até pequenos parques de diversão com carrossel, pula-pula entre outros brinquedos estavam montados para entreter a criançada.

A polícia arma um esquema de segurança para não haver acidentes e gente e mais gente lotam os corredores, entre uma campa e outra, venerando os seus mortos.

Quando chegamos em Santa Cruz, por volta das 18h, ficamos presos por meia hora em um congestionamento antes do principal cemitério da cidade, aonde se via um mar de gente lá dentro, e outro oceano ainda chegando.

Engraçado como é diferente quando a fé é dos outros – uma coisa bonita de se ver quando se entende o por que.

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