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PERDIDOS NO SALAR DO UYUNI

17º dia de viagem
Cidade: La Paz/BO | Categoria: Diário do Piloto
Revisado em: 27/10/2017
Diário de Motocicleta

Acordamos cedo com a missão de fazer mais umas fotos no Salar do Uyuni e seguir para La Paz, pelo nosso roteiro, pouco mais de 500 km.

Tomamos café, saímos com a moto para o Salar – nosso hotel era bem de frente, tipo pé no sal... fizemos fotinhos usando perspectiva que é mais complicado do que se parece, ainda mais com apenas duas pessoas, e voltamos para montar nossa bagagem e partir.

Os responsáveis pelo hotel, Raul e Sandra, extremamente simpáticos, ficaram ao nosso lado todo o tempo enquanto arrumávamos as coisas, batendo papo, fazendo perguntas, rindo das nossas palhaçadas, e esse clima descontraído foi comendo minutos do relógio.

Raul me deu 2L de gasolina, pois de manhã havia perguntado sobre qualidade da estrada que passava na porta do Hotel, e aonde eu conseguiria abastecer. Ele se recusou a cobrar pela gasolina, e quando acertei nossa conta, me recusei a pegar o troco – estávamos quites.

Subimos na moto e seguimos pela estradinha que contornaria o Vulcão Tunupa, nos lançaria na Ruta 603 até a Ruta 30, e de lá até Oruro e finalmente a Ruta 1 até La Paz – fácil assim... só que não.

No começo o cascalho era promissor até começar os trechos de areia fina igual a talco, que fazia a moto afundar e rebolar de frente e de costas.

A Elda começou a descer nos piores trechos e com o tempo eles passaram a não melhorar mais.

Passado o povoado de Jirira, um misto de pedras grandes e areia fofa foi me desestabilizando, quando finalmente atolei a moto.
Tive que tirar o baú traseiro e a Elda precisou empurrar a moto enquanto eu acelerava... ali joguei a toalha. Já estávamos a cerca de 1h30 naquela maldita estradinha e nem 10 km havíamos percorrido.

O jeito era voltar, e foi o que fizemos.
Em Jirira saí para o Salar primeiramente com a ideia de motocar de volta para Colchani e de lá acessar a Ruta 30, mas de súbito tive a imbecil idéia de contornar o Vulcão Tunupa pelo Salar, na esperança de encontrar um acesso para estrada mais a frente – em 80 km aquela areia viraria asfalto e seríamos felizes para sempre.

Escolhi uma trilha e segui Salar do Uyuni a dentro, na direção aonde lá na frente, a estrada de asfalto deveria estar passando.

Eu tinha 160 km de autonomia e as distâncias eram maiores que eu podia calcular.
Passados alguns minutos, as montanhas ao longe ficaram mais próximas, na mesma medida em que a trilha que eu seguia desaparecia... de repente estávamos em uma parte do Salar aonde nenhum carro de turismo costumava ir... a trilha só não desapareceu, como o piso começou a ficar mais rugoso e molhado, afundando um pouco a moto e dificultando a pilotagem.

Neste ponto não se via nenhuma saída do Salar para a estrada, na verdade não se via estrada e nenhum tipo de comunidade, Pueblo ou cidade.

Estávamos perdidos e quase sem gasolina.

O jeito foi dar meia volta e retornar para o hotel, encontrar mais gasolina e seguir para Colchani – o plano inicial.

Ao me aproximar do hotel minutos depois, encontrei a trilha que nos levaria para a cidade, e como no dia anterior o nosso trajeto até ali tinha sido de 108 km, com a autonomia de 110 km, resolvi arriscar.

Cruzamos mais uma vez o Salar do Uyuni, desta vez com fortes ventos, o que foi sugando nossa pouca gasolina.

Com o tempo o Vulcão Tunupa foi ficando pequeno no nosso retrovisor enquanto Colchani foi ficando cada vez mais perto.

Quando finalmente entrei no posto de gasolina, pude respirar aliviado e completar 19,25L de gasolina.
A moto estava revestida de sal e a mocinha que nos atendeu gentilmente me ofereceu água para lavar a moto. Quem me conhece sabe que não gosto dessas coisas de lavar motoca, mas deixar aquele sal todo grudado nela, certamente causaria danos elétricos e mecânicos... então lavamos, mas não demos brilho e nem passamos pretinho, só retiramos o sal que foi caindo em pedras, se derretendo com a água.

Limpos e abastecidos, começávamos do zero a nossa viagem para La Paz às 13h30

Os primeiros 150 km foram deliciosos pela nova Ruta 30, um tapete que foi serpenteando por um terreno que poderia facilmente estender uma estrada em linha reta, chata e monótona... mas não, eram curvas atrás de curvas, que foi nos distraindo e divertindo, tirando da mente que pelos planos estaríamos a pelo menos uns 250 km dali.

Depois de Huari, cidade aonde a nossa estradinha nos levaria de manhã, a Ruta 30 mudou completamente... as curvas se foram dando lugar a exaustivas e tediosoas retas, e o asfalto lizinho cedeu espaço para um pois grosso e com remendos.

E assim foi até Oruro que não chegava nunca.
Paramos para nos hidratar e matar um pacote de batatas fritas, e seguimos viagem já na certeza de chegar em La Paz a noite.

Cerca de 150 km antes de chegarmos, abastecemos a moto, a Elda colocou sua capa de chuva e eu me rendi as luvas – estava viajando sem por conta dos cortes nos dedos, com a luva a pressão nos ferimentos é maior e a dor é muito chata, mas com frio não daria para encarar viajar a noite com as mãos peladas, então bora doer.

Vimos o Sol se por atrás do Vulcão Sajama que visitamos em 2015, e que mesmo a 200 km de dist6ancia, desponta imponente no horizonte entre a Bolívia e o Chile... um visual incrível.

Chegamos em El Alto por volta das 19h aos 8°C, e como já conheço a região e o sistema caótico das vans que entopem as ruas, fui cortando daqui e dali até que finalmente consegui descer para La Paz em tempo recorde... 25 km em 1h30 até o nosso hotel.

Agora é curtir a cidade, visitar o que não visitamos, e levar a Elda para conhecer lugares que sempre costumo guiar meus grupos.

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