MUITA ESTRADA DE EASY RIDER ATÉ PETER FONDA

Postado em: 5/7/2012 | Categoria: Entrevista
Diário de Motocicleta

Hoje em dia, seis entre dez amigos motociclistas do Diário de Motocicleta realizam o sonho de viajar de moto Brasil e Mundo a fora. Destes, pelo menos uns quatro trazem essa vontade da infância ou da adolescência inspirados no clássico Easy Rider (1969), mas apenas nosso amigo Nelson Chardosim teve a oportunidade de conhecer Peter Fonda, protagonista de uma geração que cresceu com o sonho de liberdade e estradas longas.

É bem verdade que a nossa realidade Tupiniquim é bem diferente da ideologia Born to be Ride, cá entre nós, acho o motociclismo brazuca muito melhor, haja vista que as raízes estão fixas na filantropia e não na bandidagem, mas tudo tem um início, tudo é bom e suficiente até que começamos a querer mais, e nosso entrevistado não foge à regra.

Chardô como é carinhoasamente conhecido pelos amigos, é um gaucho de POÁ (Porto Alegre/RS) que rodou bastante chão no nosso imenso país e já alçou vôos solos pela América Latina, em uma época em que poucos pensavam em fazer tais proezas.

Autor de dois livros, Chardô prefere motocar sozinho, pois entra em duas viagens, uma nas pistas e outra dentro de si, onde a cada km percorrido, descobre mais de si mesmo e passa a limpo os altos e baixos da vida.

Suas motos, responsáveis por tantos horizontes alcançados, deram origem a grupos, como no caso da sua Suzuki DR 800 96 e a mais recente HondaTransalp 11, embora Chardô não pertença nenhum MC, MA ou MG.

Siga o bate papo que tivemos com mais este ícone do motociclismo brasileiro.


DIÁRIO – O Iron Butt é uma prova de resistência muito conhecida hoje em dia, como foi participar deste desafio em 2000?
CHARDÔ – Eu e mais 6 amigos fizemos a prova Sadle Sore, em novembro de 2000, que consistia em rodar 1.000 milhas em no máximo 24 horas, fizemos em 21h10. Fomos os primeiros brasileiros a rodar em território nacional, e a DR800 foi a primeira big trail a realizar esta prova no Brasil. Foi um projeto do amigo motociclista e também escritor, Álvaro Teixeira, já falecido, em que rodamos por estradas contornando o Rio Grande do Sul. O Álvaro já havia tentado realizar esta prova anteriormente, rodando solo com sua Harley, mas teve problema mecânico e precisou abortar. Na segunda empreitada convidou alguns amigos nos quais eu estava incluído.


DIÁRIO – Suas viagens de moto começaram muito antes do Iron Butt em uma época onde não existia internet, como era se preparar para uma viagem de moto?
CHARDÔ – Fiz várias viagens não muito longas, antes da internet, nas quais o planejamento não era o mais importante, pois o objetivo era rodar solo ou com amigos e curtir alguns dias de estrada, mas também era uma grande aventura com os poucos recursos e equipamentos que tínhamos, comparado ao que temos hoje a disposição no mercado.


DIÁRIO – Hoje em dia com a facilidade de informações, acabamos nos deparando com muitos dados errados. Atualmente, como e quanto tempo leva preparar-se para estrada?
CHARDÔ – Acredito que não existe uma receita para isso, e o tempo vai depender da dedicação ao projeto. A internet facilitou muito e nos oferece muitas informações a respeito do destino pretendido e lugares por onde projetamos passar. Algumas informações são conflitantes, mas nada impede de um bom planejamento com bons mapas e leitura de livros publicados por motociclistas que já passaram pelos lugares que pretendemos visitar. Para a viagem a Machu Picchu, em 2000, eu planejei durante 10 meses, mas isso pode variar de pessoa pra pessoa, pois podemos planejar a vida toda e nunca partir (risos).


DIÁRIO – Qual foi o destino da sua primeira viagem? Em que ano foi realizada?
CHARDÔ – Minha primeira grande viagem que, de certa forma, me colocou definitivamente no motociclismo, foi à viagem a Machu Picchu, cruzando os Andes e o Atacama, em março de 2000. Hoje é um roteiro habitual de quase todos os mototuristas.


DIÁRIO – Das viagens feitas, qual foi a mais marcante até hoje e que merece ser refeita?
CHARDÔ – Penso que todas são marcantes, mas Machu Picchu era um sonho desde o início da adolescência, pois tive a sorte de cair em minhas mãos uma revista, O Cruzeiro, com uma reportagem sobre a cidade dos Incas. E quando pedalava a minha bicicleta, por ruas de terras do bairro em que cresci, fantasiava como se estivesse a caminho de Machu Picchu. Então foi um grande sonho da adolescência. E também o que foi ocorrendo no percurso da viagem, as coincidências, as dificuldades, as pessoas encontradas, penso que tudo estava programado para acontecer. Inclusive a fratura da quarta vértebra lombar nos Andes peruano. Foi uma experiência marcante em minha vida, pois conheci uma força que não sabia existir. Retornei novamente a Machu Picchu em 2004, mas para fazer a trilha Inca, completa, de 4 dias e 3 noites.


DIÁRIO – Existe algum lugar para onde nunca mais voltará? Por quê?
CHARDÔ – Eu penso que para ter este sentimento de nunca mais voltar a algum lugar, só se algo de muito grave tenha acontecido, ou uma zona de conflito, e para mim, até os acontecimentos desagradáveis e de risco, serviram de aprendizado. Escrevi em meu site: Em todo esse espaço de tempo que ando em duas rodas, não aprendi muito, só aprendi a evitar problemas. Penso que todo motociclista aventureiro sempre quer conhecer novos lugares, pois sempre terá um mais belo do que o último conhecido, basta procurá-los. Então, até hoje, não tem um lugar que eu guardaria o sentimento de nunca mais voltar.


DIÁRIO – Qual foi a última viagem realizada e o quem vem pela frente?
CHARDÔ – Minha última viagem longa foi à Ushuaia, depois disso tive um grave acidente em 2008, o que, talvez, me causou um trauma psíquico também, mas que já estou plenamente recuperado. Pouco antes desse acidente estava me preparando para rodar até a América Central, o que ainda pretendo realizar. E também rodar por países da Europa ocidental.


DIÁRIO – Qual o maior desafio em uma longa viagem de moto?
CHARDÔ – Penso que o maior desafio é sair, dar o primeiro passo, o primeiro quilômetro, soltar as amarras e sair da zona de conforto. Pois o momento de partir, significa que quase tudo foi planejado, restando pela frente todas as surpresas do desconhecido, a cada dia, e esta novidade é que nos faz seguir em frente, porque, com todo o planejamento, nunca teremos o conhecimento do que vai acontecer. Nossa memória grava tudo como num filme, em todas estas situações de contato com a natureza, de lugares novos e desconhecidos. Isso é viver, e fazendo o que mais gosto, viajar de moto. E certamente não estaremos sozinhos em nenhum lugar com as estradas desse planeta.


DIÁRIO – O livro Machu Picchu – Uma Aventura de Moto à Cidade Sagrada dos Incas foi sua primeira publicação. Quais informações você compartilha com o leitor?
CHARDÔ – No livro Machu Picchu eu conto praticamente minha vida no motociclismo, meus sonhos e sorte na solução de problemas encontrados no caminho, tanto na vida como na viagem ao Peru. As sensações da travessia solo pelo deserto de Atacama cruzando o Paso de Sico. A primeira visão do Pacífico, a passagem pela capital boliviana, o frio na montanha, a nevasca nos Andes Peruano e muitos outros detalhes até colocar os pés na cidade sagrada dos Incas, um sonho antigo de adolescente e finalmente realizado.


DIÁRIO – E seu segundo livro Ushuaia – Uma Aventura de Moto à Terra do Fogo você narra a viagem ao Fim do Mundo. Qual foi o trecho mais difícil daquela aventura?
CHARDÔ – Na viagem a Ushuaia eu tive a primeira tentativa frustrada por uma cadela chamada Jackye, junto ao museu Pablo Neruda, em Isla Negra, a beira do Pacífico, no Chile. Meu objetivo era cruzar vários passos dos Andes, ir em direção ao sul serpenteando a fronteira entre Argentina e Chile. Mas o trecho mais difícil que enfrentei foi na ruta 40, entre Bajo Caracoles e El Chatén, Argentina, onde peguei ventos muito fortes que me provocou 2 tombos e pensei que teria que abortar a viagem novamente. No dia seguinte li no jornal local, que as rajadas de ventos tinham sido de até 116 km/h. Imagine de moto, em estradas ripiadas, com esta força lateral. Só quem sentiu a ação desses ventos patagônicos consegue avaliar.


DIÁRIO –
Como o amigo leitor pode adquirir os seus livros?
CHARDÔ – Meus livros estão disponíveis no site www.chardo.com.br


DIÁRIO – Saindo um pouco da estrada, nos conte como se deu o encontro com Peter Fonda.
CHARDÔ – Assisti o filme Easy Rider, no lançamento em 1969, em minha cidade de Porto Alegre. Tinha 16 anos, mas possuía uma carteirinha escolar com idade de 18 anos, e foto com bigode pintado (risos). Com 14 anos eu andava em uma Lambretta LD, então o filme era tudo o que um adolescente queria viver. Esse filme marcou a minha geração, assim como o Festival de Woodstock, no mesmo ano. Sofri muita influência do movimento hippie, e felizmente peguei só a parte boa. O tempo passou e em abril de 2001 o Sr. Peter Fonda veio a Campo Grande/MS, a convite do amigo Zé Lopes, em um evento de motociclismo. Eu não poderia deixar escapar a chance de oferecer meu livro autografado ao meu grande ídolo do cinema e ser fotografado ao seu lado. O cara é uma simpatia e senti uma grande empatia de amigo. Foi um momento muito especial poder ter participado desse encontro.


DIÁRIO – Além do site, existe outro meio de contato que gostaria de divulgar aos apaixonados por moto turismo?
CHARDÔ – No Facebook procurem por Chardô.

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